quarta-feira, 4 de junho de 2014

BHTrans espera implantar 85% do BRT Move até a Copa

04/06/2014 - Estado de Minas

Até o início da Copa do Mundo, a BHTrans espera que 85% do novo sistema de transporte de massa de Belo Horizonte, o BRT/Move, esteja instalado e em funcionamento, substituindo linhas antigas do sistema BHBus. Mas, com cerca de 75% do projeto já em operação, passageiros ouvidos pelo Estado de Minas relatam que os novos ônibus têm se mostrado vantajosos sobretudo para quem faz poucas baldeações ou tem acesso fácil às estações. Os corredores exclusivos e as integrações possibilitadas pelo projeto foram programados para reduzir o tempo de deslocamento de três em cada cinco passageiros. Ou seja, 40% dos usuários continuarão gastando o mesmo tempo para ir ao trabalho, escola, médico e alguns podem até ter esse intervalo ampliado. De acordo com a BHTrans, o planejamento do Move previa que 420 mil das 700 mil pessoas transportadas diariamente tivessem ganhos de tempo, deixando 280 mil em situação igual ou pior em relação ao quadro anterior.

Em meio a esse último contingente estão passageiros como a faxineira Eunice Roberta Valentim Gomes, de 37 anos, que reclama que a vida se tornou muito mais difícil depois que os ônibus que faziam o trajeto de casa para o trabalho foram integrados ao Move. Ela e o marido tiveram de antecipar em nada menos que quatro horas – das 7h para as 3h – sua saída de casa, no Bairro Piratininga, em Venda Nova, para não chegar atrasados. Isso, por causa da necessidade de baldeações e do grande número de paradas da linha 51 (Estação Pampulha/Centro/Hospitais), com 20 pontos desde a Estação Pampulha. Antes das 6h, o casal relata que, mesmo com a estação lotada, os ônibus têm intervalos longos, que chegam a 40 minutos. "Nossa vida virou um inferno. Levantar no meio da madrugada não faz bem para a nossa saúde e nos deixa esgotados no fim do dia. Faltam mais ônibus para atender a todo mundo que precisa", disse a faxineira.

Antes, usando o ônibus da linha 2210C, o trajeto do Bairro Piratininga aos Hospitais levava 50 minutos. Com a implantação do Move, Eunice gasta 25 minutos na alimentadora 617 (Estação Pampulha/Piratininga) e mais uma hora no troncal 51 – um aumento de 70%. "Isso, quando consigo pegar os primeiros ônibus da estação. Lá fica tudo lotado, todo mundo junto, que nem uma boiada quando abre a porteira. Tem idoso sendo empurrado, mulheres pisadas: um desrespeito", reclama. O marido de Eunice tem ainda mais desgastes. Antes, tomava um ônibus do bairro até o Centro e embarcava em outro com destino ao Bairro Paulo VI, na Região Nordeste. "Agora, meu marido precisa de quatro ônibus. O tempo de viagem dobrou, passou para três horas", calcula.

Por outro lado, muita gente passou a se deslocar mais rápido com o Move. O aposentado Lauro Pinto de Almeida, de 81, não sentirá mais saudades do tempo em que chegou a gastar três horas entre o embarque e o desembarque no horário de pico na Avenida Antônio Carlos. A vida melhorou com a extinção da linha 2211 (Planalto) e sua substituição pela alimentadora 718 (Estação Pampulha/Planalto) e a troncal 50. "Entrar no ônibus era um suplício. Mas o pior era ficar parado horas entre os carros no engarrafamento. Já conhecia cada passeio da Antônio Carlos, de tanto ficar olhando da janela. Pior era quem ficava em pé e nem janela tinha para olhar, naquele aperto todo dos ônibus lotados", conta. Outra grande vantagem percebida pelo passageiro é o embarque mais organizado e seguro dentro das estações. "Se a pessoa mora perto ou consegue pegar o ônibus da alimentadora com tranquilidade, é mais fácil ainda. Na estação tem segurança, tem espaço, não chove e não faz frio".

Na avaliação do especialista em transporte e trânsito Silvestre de Andrade Puty Filho, é normal que haja pessoas prejudicadas, mas o Move tem tido mais beneficiados. No caso das queixas da demora por excesso de pontos, o especialista considera ser isso um reflexo dos ganhos experimentados com as linhas diretas ou expressas. "Ao verem as linhas que circulam pelo corredor sem parar, com direção ao Centro, os passageiros passaram a exigir desempenho semelhante. O que é justo, mas é preciso saber se há demanda para viabilizar isso", disse. Os problemas enfrentados em demandas regionais, de um bairro a outro, segundo Filho, podem ser sanadas com a ampliação do número de viagens das linhas alimentadoras. "Nesse caso, contudo, houve melhora especialmente com a redução da tarifa para quem roda sem chegar às estações de integração", observa.

A expectativa dos técnicos da BHTrans com o Move era de redução média de 57% nos tempos de viagem na Avenida Cristiano Machado e de 48% na Avenida Antônio Carlos, nos horários de pico. Nesse planejamento a empresa considera que "a grande maioria dos usuários experimentou ganho de tempo".

Demanda é o desafio

Quando anunciada, a substituição do sistema BHBus pelo BRT/Move surgia com a promessa de não apenas encurtar o tempo das viagens, mas também de proporcionar mais conforto, por usar ônibus modernos e estações organizadas. Porém, os ganhos com estabilidade, ar-condicionado e estações novas ainda não superaram a confusão diante da grande demanda. A extinção da linha 1505 fez com que a entrevistadora Roberta Moreira, de 24 anos, passasse a usar as linhas 716 (alimentadora), até a Estação São Gabriel, e a 53 D, sem paradas até o Centro. "Em termos de tempo, está praticamente a mesma coisa. Só que as filas na estação são muito desorganizadas. Quem chega muito cedo passa sufoco. Tem de viajar em pé no meio do tumulto", critica.

A vendedora Roseana Maria de Jesus, de 53 anos, diz que o Move tornou sua vida um caos. "Os ônibus só rodam cheios, com gente em pé. Nas estações só acumula gente, as escadas rolantes não funcionam. Detestei esse negócio de ter de pegar um ônibus até uma estação distante para só depois ir para onde quero", disse ela, que também reclama da demora da linha 51 (Estação Pampulha/Centro/Hospitais).

BENEFÍCIOS

Por outro lado, com o tempo que economizou com o Move, a caixa Beatriz Nascimento pode acordar um pouco mais tarde ou aproveitar para organizar suas atividades, pagar contas e resolver outras pendências antes de ir ao trabalho. Antes, ela gastava uma hora e 15 minutos no ônibus 1502 da Estação São Gabriel até o Centro. Hoje, usando apenas a linha troncal 83D, ela faz o mesmo trajeto em 17 minutos. "Para mim, o Move foi uma maravilha. Minha vida melhorou demais, foi um peso que tiraram das minhas costas. Deixei de acordar antes das 7h para levantar às 9h. Antes, só chegava atrasada. Agora, chego cedinho", afirma.

A funcionária de serviços gerais Geralda Aparecida de Souza, de 46, também teve sua linha costumeira integrada ao Move e com isso ganhou tempo no deslocamento. Antes, para ir ao Centro, Geralda embarcava no ônibus 2210 (Piratininga), na Avenida João Samaha, e desembarcava 20 minutos depois. Hoje, o primeiro deslocamento é feito pela linha alimentadora 617 (Estação Pampulha/Piratininga) e o segundo, pela troncal 50 (Estação Pampulha/Centro - direta), que somadas levam cerca de 13 minutos no mesmo trajeto, uma economia de tempo de 35%. "O ônibus é mais cheio, mas tem ar condicionado e é mais novo. Para uma viagem curta assim compensa ficar de pé um pouco. Só está um pouco confuso ainda, porque está no começo, mas vai melhorar", acredita.

De acordo com o diretor-presidente da BHTrans, Ramon Victor Cesar, a maior parte dos passageiros com linhas integradas ao BRT/Move experimentará ganho de tempo nos deslocamentos. "A parte que terá as viagens ampliadas será ínfima. E esses farão viagens em veículos com ar-condicionado e padrão Move de mecânica, que não dá solavancos e circula com mais suavidade", disse. Ele evitou projetar qual a parcela de usuários gastará mais tempo nos coletivos com o Move. "Quando a bilhetagem eletrônica estiver totalmente implantada nas estações, vamos poder mensurar finalmente quantas pessoas ganharam tempo", afirmou.

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